A CIGARRA E A FORMIGA
VERSÃO DE BOCAGE
Tendo a cigarra em cantigas
Passado todo o verão.
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.
Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela.
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.
Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois, tinha riqueza e brio,
Algum grão com que manter-se
Até voltar o aceso estio.
-"Amiga", diz a cigarra,
-"Prometo, à fé d'animal,
Pagar-vos antes d'agosto
Os juros e o principal."
A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso junta.
-"No verão em que lidavas?"
À pedinte ela pergunta.
Responde a outra: - "Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora."
-"Oh! Bravo!", torna a formiga.
-"Cantavas? Pois, dance agora!"
MORAL DA ESTÓRIA:
A cigarra foi irresponsável consigo mesma. Se divertiu na estação da juventude e quando veio a velhice não tinha dinheiro poupado. Ao passo que a formiga foi usufruir dos frutos do trabalho. Infelizmente, a vida é plantio e colheita, não um peço e recebo de esmoler. O asilo está cheio de idosos que deram tudo para os seus filhos e se descuidaram do próprio bem-estar. Hoje, tornaram-se dependentes da caridade dos outros. Prefira poupar dinheiro e aplicar na mocidade a depender das doações hipotéticas de terceiros. Os gregos já afirmavam: “in médio start virtus”, ou seja, no equilíbrio entre trabalho e lazer é que reside a verdadeira virtude!